Você é dominado pelos seus impulsos? | Minha Vida

Evelyn Vinocur

Escrito por
Evelyn Vinocur

Psiquiatria – CRM 303514/RJ

Por Especialistas – Em 22/10/2012

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Nestes casos, estamos diante do que é conhecido como transtornos de hábitos e impulsos. Impulsos são atos recorrentemente repetidos, nocivos, desadaptativos e nem sempre secundários a outros transtornos psiquiátricos existentes. Em situação de vulnerabilidade e estresse, tendem a se agravar. Fazem sofrer não só o paciente como toda a família. Ocorre em crianças, adolescentes e adultos e não raro trazem um sentimento de alívio no momento do ato.

Alguns exemplos mais frequentes de Transtornos de hábitos e impulsos são jogo patológico, piromania , cleptomania, tricotilomania, amor patológico e dependência da internet.

Jogo patológico

Antigamente, e ainda hoje, muitos acham que o jogo patológico é um vício de pessoas fracas, irresponsáveis e perdulárias, que não se importavam com o sofrimento de seus entes queridos. Hoje, sabemos se tratar de um transtorno do controle dos impulsos do comportamento de jogar. Costuma ter início na adolescência em homens e mais tarde, em mulheres. A vida da pessoa evolui sob uma espiral decrescente onde o jogo domina a vida do indivíduo em detrimento da família, trabalho, amigos, etc. Não é incomum que o patrimônio seja dilapidado, apesar dos apelos da família. A pessoa anseia cada vez mais por ação e emoção, que fazem parte do processo patológico da doença. A vida passa a girar em função do jogo e o cuidado com a casa e com os filhos fica deteriorado e o paciente pode mentir ou até violar a lei para obter grandes somas de dinheiro para saldar grandes dívidas.

Infelizmente, o prognóstico pode ser sombrio e separação e desavenças na família são comuns. Mesmo diante de rombos financeiros de grande monta, o paciente não para de jogar por não abrir mão da excitação que o processo causa e do alívio quando comete o ato patológico.

Piromania

Ou comportamento incendiário patológico sem a presença de qualquer outro transtorno psiquiátrico em paralelo. Sem motivo aparente, a pessoa tem uma atração por fogo, seja na forma de atear fogo, preocupação com tudo relacionado ao tema, seja também com bombeiro, carro de bombeiro, etc. Existe um fascínio ao ver o fogo ardendo.

Roubo Patológico

“Os transtornos de hábitos e impulsos são condições sérias, cada vez mais frequentes, e muitas vezes de prognóstico sombrio e de muito difícil tratamento”

Também chamado de cleptomania. Igualmente, uma sensação crescente de tensão acompanha o roubo seguido de sentimento de alívio após o roubo. Geralmente os roubos são de pequena monta, podem ser guardados, jogados fora e geralmente não ficam para o uso pessoal. Costuma ser um ato solitário, sem um cúmplice. Conforme o perfil que acompanha os sujeitos com transtornos dos impulsos, a excitação atinge um platô na hora do roubo e um alívio após o mesmo. Uma jovem cleptomaníaca, ao ser perguntada o que fazia com os objetos roubados, disse que a grande maioria ela jogava fora, pois seriam reconhecidos pelos pais ou pelo namorado.

Tricotilomania

A pessoa não consegue impedir o impulso de arrancar os cabelos, que podem ser de qualquer local do corpo, como cabelos da cabeça, cílios, sobrancelhas, pelos pubianos, axilares, etc. Muito visto em crianças pequenas, também não é raro ocorrer nos adolescentes e adultos. A área pode ser tão extensa que a pessoa fica com áreas de pelada (áreas da cabeça que ficam sem cabelo).

Amor Patológico

Comportamento repetitivo e descontrolado de dar atenção e cuidados ao parceiro, de modo desmedido, muitas vezes com a intenção, velada, de receber afeto e evitar sentimento de insegurança e minusvalia. O parceiro reclama desta atitude inadequada, se mostra irritado com isso, mas é em vão. A pessoa amada costuma ficar sufocada e o desfecho não raro é ruim, com a perda do ente querido. Por alguns é chamado de ciúme patológico.

Dependência da Internet

Não existe ainda um consenso na comunidade científica sobre a dependência à internet. Goldberg, em 96, foi o primeiro a denominar esta condição como um transtorno dos impulsos. Segundo ele, teria que haver um padrão desadaptativo do uso da internet gerando: a) um mal estar não adaptativo em várias áreas, o desenvolvimento de tolerância (necessidade de cada vez mais tempo na internet para obter satisfação), b) abstinência (agitação, irritabilidade, pensamentos obsessivos sobre internet entre outros quando saía do computador) c) presença de sérios prejuízos da qualidade de vida em todos os setores da vida da pessoa, d) o uso da internet diretamente relacionado a aliviar os sintomas da abstinência, e) continuar o uso excessivo da internet mesmo sabendo que a vida familiar, afetiva, social e profissional está se deteriorando.

Ilustração de um caso

João *, 15 anos, sempre foi tímido em excesso e com oito anos recebeu o diagnóstico de ansiedade social. Desde os 14 anos, segundo sua mãe, ele passou a se trancar em seu quarto, cada dia chegava mais tarde na escola e se isolou cada dia mais dos amigos. Sua vida ficou “virtual”. Com o passar dos meses ele foi sentindo um prazer extremo quando acessava várias páginas da internet ao mesmo tempo, acessando vários tipos de pessoas ao mesmo tempo e tudo que aquilo lhe causava um sentimento de excitação, onipotência e curiosidade, chegando ao clímax quando ele conseguia abrir mais de 40 telas ao mesmo tempo. Só assim conseguia obter um sentimento de relaxamento e bem estar, a ponto de não conseguir abster-se de tal atitude, mesmo sabendo que estava atrapalhando os seus estudos e a vida em geral. Suas horas de sono se reduziram, chegando a virar noites, pois não conseguia sair da internet.

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Os transtornos de hábitos e impulsos são condições sérias, cada vez mais frequentes, e muitas vezes de prognóstico sombrio e de muito difícil tratamento. Os sintomas, sempre que percebido pelos familiares, devem ser notificados e o paciente deve imediatamente ser levado ao psiquiatra e toda a família deve também ser tratada.

* nome fictício

Fontes:

Impulse control disorders, Hollander et al., 2006.
Artmed, 2003.2. CID-10 – Classificação de Transtornos mentais e de Comportamento

Kaplan and Sadock’s Comprehensive Textbook of Psychiatry

Young et al., al 1996

Prado et al, 1998

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