Problemas nas células podem ser a causa de cansaço excessivo e até diabetes

Ciro Martinhago

Escrito por
Ciro Martinhago

Genética Médica – CRM 102030/SP

Por Especialistas – Em 5/3/2015

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Doença ou disfunção mitocondrial é um problema de produção de energia. Quase todas as células do corpo têm uma ou mais mitocôndrias, pequenas “usinas” que produzem a energia essencial para o corpo. São pequenos órgãos (organelas) localizados dentro do citoplasma da célula, que produzem seu próprio material genético – o DNA mitocondrial. Diversas doenças ocorrem quando os genes nesse tipo de DNA sofrem alguma alteração.

Do ponto de vista científico, trata-se de uma categoria ou grupo de doenças. O distúrbio é multi-sistêmico, pode afetar mais de um tipo de células, tecidos e órgãos, portanto os sintomas e sinais das doenças mitocondriais não são idênticos em todos os afetados, pois cada portador tem uma combinação única de mitocôndrias – umas sadias, outras defeituosas – assim como a sua distribuição pelo corpo.

Fazendo uma analogia com a usina que fornece energia para uma larga comunidade com diferentes níveis de necessidades energéticas: da mesma forma, a mitocôndria provê energia para vários órgãos do corpo. Assim, onde há uma disfunção mitocondrial pode ocorrer um apagão total, como a doença de Leigh por exemplo, severa e fatal, ou uma quebra menor de energia, que pode resultar em um problema de saúde severo, mas não letal.

O que acontece com o corpo?

Cérebro e músculos demandam uma alta quantidade de energia, portanto a doença mitocondrial tipicamente afeta essas partes do corpo, causando encefalomiopatias (doenças no cérebro e músculos). Outros órgãos geralmente afetados, em diferentes níveis de severidade, são: olhos, aparelho auditivo, coração, fígado, trato gastrointestinal, fígado, rins, órgãos endócrinos e sangue.

Dependendo de quais células do corpo são afetadas, os sintomas podem incluir:

  • Crescimento lento
  • Perda da coordenação muscular, fraqueza muscular
  • Problemas de visão e/ou de audição
  • Atraso no desenvolvimento, deficiências de aprendizado
  • Deficiência intelectual
  • Doenças no coração, fígado ou rins
  • Desordens gastrointestinais, constipação severa
  • Problemas respiratórios
  • Diabetes
  • Risco aumentado de infecções
  • Problemas neurológicos, convulsões
  • Disfunções da tireoide
  • Demência.

Na escola, crianças com doenças mitocondriais muitas vezes apresentam surtos de energia e depois tornam-se letárgicas e encontram dificuldades para se concentrar. É essencial compreender que estes períodos de fadiga não são devidos à personalidade da criança, mas sim à exaustão total que vem de suas profundezas celulares.

Os problemas vão de dificuldades constantes para pensar, lembrar, mover-se, a severas deficiências físicas e mentais. E tudo isso pode variar entre bons e maus dias, devido a uma significante inconsistência de produção de energia dentro das células.

A doença mitocondrial pode aparecer em qualquer idade, embora se tenha a impressão de que ela se apresenta no nascimento da criança. Para algumas pessoas, a doença mitocondrial se desenvolve ao longo do tempo e às vezes, por razões que vão da falta de médicos à falta de conscientização pública, esta doença nunca é diagnosticada.

Nos últimos 10 anos, com os avanços da genética e da biologia molecular, temos uma melhor compreensão da complexidade das doenças mitocondriais. Mesmo assim, a causa (ou as causas) do quadro continua sem definição e ainda é objeto de estudos.

Como são diagnosticadas as doenças mitocondriais?

É importante que o paciente seja avaliado em centros de saúde com experiência comprovada, pois as doenças mitocondriais são de difícil diagnóstico. Em alguns casos, sintomas e sinais podem sugerir uma específica doença mitocondrial. O exame físico e testes laboratoriais são necessários para caracterizar o envolvimento de vários órgãos e chegar ao diagnóstico correto. Estudos laboratoriais incluem: testes de sangue, exames cerebrais e do coração, avaliações neurológicas, oftalmológicas e de audição.

Altos níveis de ácido lático no sangue ou no fluido cérebro-espinhal é um sinal comum de disfunção mitocondrial. A biópsia muscular é um dos exames padrão para o diagnóstico da DM, o que requer análises microscópicas especiais e testes bioquímicos (como medições da atividade das enzimas da cadeia respiratória mitocondrial).

Finalmente, os testes genéticos de sangue, urina ou músculos são realizados para detectar exatamente a mutação genética responsável por uma determinada doença mitocondrial.

Quais são os tratamentos para a doença mitocondrial?

Os tratamentos são limitados e as terapias para tratar sintomas e sinais específicos das doenças mitocondriais são muito importantes. Por exemplo, em pacientes mitocondriais, a epilepsia normalmente responde a drogas anti-convulsantes e a insulina e outros tratamentos convencionais são efetivos para diabetes mellitus.

Suplementos nutricionais como vitaminas e co-fatores são importantes para pacientes com doenças mitocondriais e muito mais úteis em pacientes com deficiências específicas: por exemplo, a suplementação com a Coenzima Q10 é bastante efetiva em pacientes com deficiências desta coenzima.

Uma forma de prevenir a doença mitocondrial

Recentemente aprovada no Reino Unido, a técnica de fertilização in vitro que envolve a manipulação genética de células de três pessoas poderá ajudar a eliminar a doença mitocondrial, fazendo a troca do DNA mitocondrial afetado da mãe pelo de uma doadora anônima.

O bebê terá – sob o ponto de vista técnico – três pais biológicos, com 99,8% de material genético da mãe e do pai e 0,2% das mitocôndrias da doadora de óvulos. A técnica basicamente consiste em substituir as mitocôndrias contidas no óvulo da mãe por mitocôndrias saudáveis retiradas do óvulo de uma doadora.

Cerca de 100 crianças a cada ano, no Reino Unido, são afetadas por defeitos genéticos em suas mitocôndrias e, em média, 10 desses casos sofrem doenças severas como falência do fígado, perda muscular, cegueira e danos cerebrais.

Uma vez que o DNA mitocondrial é transmitido para a criança pela linha materna, as mulheres afetadas vão certamente passar esses defeitos genéticos para seus filhos, deixando muitas delas agoniadas com a decisão de ter ou não ter filhos biológicos. No futuro, os cientistas esperam que essas mulheres possam ser poupadas de fazer essa escolha.

Heteroplasmia

Heteroplasmia é a presença de mais de um tipo de DNA mitocondrial nas células de uma pessoa. Ou seja, o paciente apresenta duas linhagens diferentes de mitocôndrias em seu organismo. Esse tipo de alteração é usualmente responsável pela gravidade da doença. Quanto maior o número de mitocôndrias alteradas em relação as normais, mais grave é a clínica do paciente.

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